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Falando Sobre... MRPII e os ERP

Publicação: 05/12/2017
Área: / Espaço ERP /

Simplesmente adoro falar e trabalhar com o tema MRPII (Manufacturing Resource Planning). Já fui professor desse tema e coordenei e acompanhei vários projetos em indústrias de pequeno a grande porte, sendo assim, consigo afirmar sem sombra de dúvidas, que o MRPII é uma ferramenta de planejamento de produção que pode trazer resultados bem significativos para os negócios, principalmente para as indústrias com manufatura em lote ou discreta (com controle unitizado… carros, eletrodomésticos, etc.).

Mas mesmo sendo uma ferramenta muito eficaz, as implantações de MRPII não são nada fáceis. Tendo um histórico muito negativo, onde algumas empresas chegam a abortar o projeto, e outras somente conseguem os resultados desejados depois de algumas tentativas. Por que isso acontece? Está relacionado ao ERP (ou o seu ecossistema), os processos da empresa ou a ambos? Vamos falar sobre isso.

NIVELANDO CONCEITOS SOBRE MRPII

A evolução do MRPII está completamente atrelada ao surgimento dos ERP. No início do uso da informática nas atividades empresariais, grandes empresas tinham acesso a caríssimos computadores de grande porte que tinham um poder de processamento muito menor que o seu smartphone de hoje, e, naquela época, o que se conseguia com isso era a produção do BOM (Bill of Material - Lista de Materiais). Isso era um avanço enorme para a época, onde pontes e navios começaram a ter os seus materiais melhores definidos e controlados.

Depois a informática foi evoluindo e surgiu o MRP (Material Requeriment Planning) que não só definia os materiais a serem utilizados, mas começava a controlar quantidade e prazos do que deveria ser produzido e do que deveria ser comprado.

Só depois, com o avanço da informática (na década de 80) que tivemos acesso de forma mais fácil aos MRPII. Naquela época, os processamentos eram feitos em mainframes (alguns tinham até uma capacidade de processamento parecida com os smartphones atuais) ou supermicros/superminis computadores e processavam os MRPII em lotes, que poderiam demorar mais de um dia de trabalho.

Estrutura do MRPII

01) S&OP (Sales and Operations Planning):
Este módulo do MRPII trata de realizar análises agregadas das vendas e das operações de uma empresa. Aqui se realizam projeções das vendas e projeções das necessidades de produção, sempre levando em consideração as situações logísticas dos estoques de produtos acabados e as vendas já efetuadas.
Normalmente trabalham projeções de vendas com base em campanhas, projeções por linhas de produtos, regiões geográficas e projetos; os estoques podem ser vistos de forma isolada (produto a produto), mas o que é mais comum e prático é trabalhar os produtos com agrupamentos por categorias ou famílias; e, na maioria dos casos, a capacidade produtiva é utilizada aqui somente para dar um referência inicial de viabilidade.

02) MPS (Master Production Schedule):
O Plano Mestre de Produção tem como função principal analisar de forma agregada as demandas trabalhadas no S&OP com as capacidades produtivas, mas agora levando em consideração todos os produtos intermediários e focando nos prazos macro de entrega.
É comum as empresas trabalharem aqui com períodos de alguns meses até um ano de projeção e tentar firmar períodos sem mudanças… se é que isso seja realmente possível para os dias turbulentos que a maioria das empresas vivem.
Essa é uma ferramenta muito importante para a Produção. Ela é um grande guia das atividades.

03) RCCP (Rough-Cut Capacity Planning):
Trata do Planejamento de Capacidade dos Recursos Críticos, onde analisa, de forma antecipada, numa visão agregada de médio/longo prazo, a falta de materiais críticos e como está a alocação dos recursos (mão de obra e máquinas) críticos associados ao MPS.
É uma ferramenta que valida o MPS.
Ela era extremamente valiosa quando a produção de um MRPII completo demorava horas (às vezes mais de um dia), mas hoje em dia, onde a escala de tempo é de algumas dezenas de minutos (no máximo), ela tem sido pouco utilizada.

04) MRP (Material Requirement Planning):
Trata-se do Planejamento das Necessidades de Materiais, onde, através de modelos de cálculos utilizando todas as variáveis associadas, é determinado a quantidade e o momento que se deve realizar uma determinada produção e a compra de materiais.
O foco do MRP é de buscar a menor quantidade possível de estoque em processo.
Os resultados obtidos aqui são conjuntos de Ordens de Produção e de Ordens de Compras de Materiais, além de fornecer a base para montar a Programação da Produção.
É o “coração” do MRPII.

05) CRP (Capacity Requirements Planning):
Um ponto fundamental da Gestão Industrial é o Planejamento das Necessidades de Capacidade Produtiva, onde, define as necessidades de pessoas e de máquinas para conseguir atender as demandas programadas no MRP.
Os CRP trabalham com recursos de Capacidade Infinita (quando os excessos de demandas não são realocados) ou com Capacidade Finita (onde os excessos de demandas são realocados conforme disponibilidades).
É uma ferramenta valiosa, onde, combinada com o MRP, montam o Programa de Produção da empresa.

06) SFC (Shop Floor Control):
O Controle do Chão de Fábrica permite ao MRPII ter uma visão bem apurada se o que foi planejado/programado está sendo executado pela produção e de que forma.
Nele as ações automáticas (com coletagem de dados direto nas máquinas) e as ações manuais são executadas e validadas em períodos de tempo específicos, trabalhando informações sobre as produções realizadas e as suas performances, bem como as produções perdidas e os motivos.

07) PUR (Purchase):
Os Controles das Compras é um recurso de feedback bastante relevante. Quando o MRPII está dentro do ERP, ele é o próprio módulo de Compras do sistema, já quando o MRPII é um sistema especialista integrado, ele é um módulo que tem como principal função interagir com o módulo de Compras do ERP e verificar o andamento das Ordens de Compras associadas ao Planejamento da Produção e ver os impactos.
Essa função é bastante dinâmica e é de fundamental importância para o sucesso do Planejamento,

PONTOS RELEVANTES DO MRPII

01) Ter um MRPII completo
Já encontrei alguns fornecedores de ERP que garantem que tem um MRPII completo embarcado, e quando faço uma avaliação falta-lhe algum módulo e/ou tem funcionalidades muito precárias. Você precisa tomar cuidado com isso!!!

02) Para Implantá-lo você precisa ter 98% de Acuracidade no Estoque
A utilização do MRPII precisa que a sua empresa tenha estoques confiáveis, com alta acuracidade (número de posições ativas certas/total de posições ativas), onde a prática pede que seja operacionalizado com 98% de acuracidade constante. Mas muitas empresas que começam a implementar o MRPII tem uma acuracidade muito baixa (algumas estão em 50%) e nem mensuram isso ou nem dão a devida importância. Resultado: MRPII com baixa eficácia.

03) As definições dos Padrões de Produção e dos Padrões de Setups e como utilizar essas informações
As indústrias precisam saber em quanto tempo e com quais recursos (pessoas e máquinas) elas conseguem produzir um determinado produto, seja um produto intermediário ou produto final. E ainda precisa saber o tempo e os recursos necessários para que um produto seja substituído por outro numa unidade de produção. Além disso precisam monitorar e aplicar um fator de eficiência de cada informação.
Os problemas são:
=> Muitas empresas não sabem realmente os seus Padrões de Produção/Setups. Alguns montam os padrões como metas a serem atingidas e não como informação verdadeira, e outros até dedicaram tempo e energia para definir os padrões, mas não os atualizam dentro do tempo necessário para a empresa.
=> A eficiência dos Padrões de Produção/Setup não são medidas, ou se são, não são usadas como deveriam. Alguns MRPII/ERP não tem sequer meios para fazer isso.
=> Alguns MRPII não trabalham com os Padrões de Setup e outros têm somente uma opção de Padrão de Setup por produto… que é uma falha básica de definição de requisito.

04) Cadastramento e utilizações dos Recursos Produtivos
Ter o cadastramento dos recursos produtivos, sejam eles recursos humanos ou de equipamentos, é de fundamental importância para operacionalizar um ERP/MRPII. São os graus de detalhamentos que fazem a diferença.
Os problemas são:
=> Muitos ERP de mercado não tem meios para associar as qualificações com as funções das pessoas nas atividades industriais. Esse detalhamento deve existir nos Roteiros de Processos e são fundamentais para rodar um CRP do MRPII.
=> Uma quantidade razoável de ERP do mercado somente trata um nível (no máximo dois) de detalhamento dos recursos de equipamentos. O ideal é ter no mínimo três níveis (centros, subcentros e recursos). Isso dificulta trabalhar com restrições de uso de equipamentos intercambiáveis.
=> A maioria dos MRPII de mercado não tem meios para fazer alinhamentos de recursos.
=> Um número considerável de empresas, que mesmo tendo ERP/MRPII apropriados, não trabalham com as parametrizações e/ou com o uso adequado dos seus recursos, perdendo muita flexibilidade de análise.

05) Roteiros de Processos adequados
Os Roteiros de Processos tanto atendem as necessidades dos MRPII, como também é um poderoso recurso para a definição e análise do Custo Industrial. São neles que os recursos e os padrões são (ou deveriam ser) alocados.
Os problemas são:
=> Não ter Roteiros de Processos no ERP, deixando ao MRPII somente uma entrada básica de dados por unidade de produtiva (linha de produção, ilha de produção, etc.).
=> Não ter meios para associar consumíveis de processo nos Roteiros de Processo. Em alguns MRPII, mesmo tendo como alocar os consumíveis de processos eles não realizam um planejamento desses materiais.
=> Não ter meios de gerar Roteiros Alternativos de Processos por produto, forçando a utilização de somente uma opção. Isso inviabiliza a função de Capacidade Finita dos CRP.
=> Mesmo tendo todos os recursos de Roteiros de Processos, algumas empresas demoram anos para começar a utilizá-lo e, em alguns casos, parametrizam errado,e utilizando muito menos do que poderia e que precisava... mas sempre reclamando que o ERP dele é muito ruim.

06) Geração e utilização de versionamentos de planos
Em todos os pontos de planejamento e programação, os MRPII tem que ter meios para gerar, guardar e aplicar versões das atividades feitas. Além de ser importante para o dia a dia, é um excelente recurso para simulações de novos produtos, novos recursos e novos cenários.
Os problemas são:
=> Muitos MRPII não tem o controle de versionamento em alguns ou em todos os pontos de planejamento/programação.
=> Alguns MRPII que tem o controle de versionamento tem poucos, ou até nenhum meio para aplicá-lo em análises.
=> Muitas empresas não utilizam ou utilizam muito mal este recurso, mesmo estando disponibilizado.

07) Cadastros e Estruturas de Produtos bem apurados
A maioria dos ERP que se propõe a trabalhar com MRPII tem os seus Cadastros e as funções de Estrutura de Produtos adequadas o suficiente para o que precisam. O problema está nas empresas, que não conseguem fazer o seu dever de casa e deixam muito a desejar com os seus conteúdos sobre os produtos.

08) Viabilidade de análise de fluxo de caixa das projeções das compras
No momento que todo o MRPII foi executado, uma programação de compras de materiais e de serviços (sejam associados aos produtos ou de terceirização) foi criado, mas, a empresa tem meios de bancar os custos associados dessas compras? Ao simular essa programação com o Fluxo de Caixa da empresa você vai conseguir isso, entretanto, muitos ERP não tem este recurso, e somente poucos têm meios práticos para fazer ajustes pelos fatores financeiros.

09) Ter opções para trabalhar com múltiplos turnos
O Calendário de um MRPII é uma função que você define os dias e horários que a sua empresa trabalha. Existem empresas que trabalham com mais de 10 calendários diferentes, e por outro lado, tem MRPII que trabalham com 5 calendários ou menos. Para algumas situações isso é um problema!!!

10) Recursos para fazer análises de impactos
Um fornecedor disse que vai atrasar a entrega em 10 dias de 5 itens muito importantes para a sua produção; uma máquina que estava sendo utilizada plenamente quebrou e o reparo vai demorar 3 dias; um operador sênior, que tem a melhor performance num determinado equipamente ficou doente e vai ficar 15 dias afastado do trabalho. Como todos esses casos afetam a produção?
Um bom MRPII tem que ter meios para fazer análise de impactos e deixar claro quais pontos podem ser problemáticos para a entrega da produção, e fazer os ajustes necessários.

Poderíamos ficar aqui e descrever dezenas de outras ações e possibilidades associadas aos MRPII, mas, com o que já foi descrito, consegui deixar claro que o índice de sucesso de uma implantação de MRPII está associado tanto às ações da empresa cliente quanto as funcionalidade dos sistemas.

ERP com MRPII embarcado, MRPII como sistema especialista integrado ao ERP ou MRPII dentro de um MES (Manufacturing Execution System). Não importa. Encontramos opções tanto de excelente qualidade como outros com grande deficiência… tem alguns que nem merecem ser chamados de MRPII. Isso só aumenta o seu nível de alerta na hora de selecionar o sistema.

Mas indiferente de qualquer coisa, você também deve perceber que a implantação (e as reimplantações, que são muito comuns neste caso) do MRPII é uma atividade complexa e com alto nível de dificuldade. Invista sabendo disso.

Muito sucesso na sua empreitada.

Mãos e mentes à obra!!!

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Autor: Mauro Oliveira
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